terça-feira, 11 de março de 2008

Noticias

Aécio e Serra voltam a encontrar-se e negam qualquer problema
O governador de São Paulo, José Serra, considera ainda muito cedo discutir a realização de prévias para a escolha do candidato do PSDB à Presidência da República em 2010. "O que for decidido está bom. É coisa para se ver mais adiante. É muito cedo para se pensar em 2010. As pessoas especulam, mas é muito cedo". E observou que não é contra prévias.
Os governadores José Serra (São Paulo) e Aécio Neves (Minas Gerais)/Foto: Fábio Pozzebom/ABr
Em compensação o governador paulista, que se posicionou pela consulta interna, está muito ativo, admitindo as prévias um passo adiante do PSDB, "um partido sempre questionado pelas decisões que tomou de cúpula e até eu muitas vezes participando desse núcleo". E ele tem razão, pois em 2006, foi um pequeno grupo, formado pelo ex-presidente Fernando Henrique, o presidente do Partido, Tasso Jereissati e Aécio, basicamente que encaminhou a candidatura de Geraldo Alckmin ao Palácio do Planalto.
Naquele momento uma das razões invocadas era a de que José Serra era importante para manter o governo de São Paulo. Agora o entendimento está mudando, sobretudo por duas razões: Aécio é candidato e a derrota de 2006 mostrou o erro cometido, deixando de ouvir as bases. Mas sobre o governo de São Paulo, um argumento invocado à época, não é referido. Ou a candidatura Serra (à reeleição...) será considerada fundamental para manter São Paulo, a maior e histórica base tucana, em poder do Partido?
Conversações
No encontro entre os governadores de Minas Gerais e São Paulo na solenidade dos 80 anos do jornal "O Estado de Minas", ambos procuraram, mais uma vez, demonstrar que não existem divergências. Serra até mostrou um bom humor ao dizer que ele e Aécio fazem tabelinha, "nos entendemos sempre..."
Explicações
A Câmara Federal quer ouvir o ministro de Relações Exteriores, Celso Amorim, e o embaixador da Espanha no Brasil, Ricardo Peidró, sobre a deportação de brasileiros em viagem à Europa. O presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia, vai consultar o ministro Celso Amorim, antes de decidir se convida o embaixador, atento a questões diplomáticas. É pensamento da Câmara também ouvir o testemunho de brasileiros que foram barrados em Madrid.
Recuo
O líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio, voltou atrás no mandado de segurança que impetrou no Supremo Tribunal Federal para obrigar o Palácio do Planalto a abrir as contas do gabinete pessoal do presidente da República com os cartões corporativos. E por uma razão óbvia: essas informações serão obtidas, agora, pela CPMI, afinal definida mediante acordo político no Congresso. Virgílio diz que com a CPMI, o Congresso passa a contar "com instrumento próprio e adequado para investigar o uso dos cartões". Mas garante que poderá retomar o pedido, no caso da base aliada do governo dificultar os trabalhos da CPMI.
Renan poupado
O PSOL não obteve êxito na sua tentativa junto ao STF para reabrir representação contra o senador Renan Calheiros. A representação foi arquivada em dezembro pelo presidente da Comissão de Ética do Senado, Leomar Quintanilha e parta o Supremo o caso se "encerra na competência" do Senado.
Ação
O DEM ajuizou no STF a Ação Direta de Inconstitucionalidade 4041, com pedido de medida cautelar, contra a Medida provisória que autorizou a abertura de crédito extraordinário de R$ 12,5 bilhões ao BNDES. Nela, o partido afirma que a MP não observou o descrito no artigo 62, parágrafo 1º, inciso I, alínea "d" da Constituição Federal. O dispositivo veda edição de medida provisória sobre matéria relativa a diretrizes orçamentárias e créditos adicionais, exceto em casos extraordinários.

Acreditar que o sucesso eleitoral dispensa planificação é cometer um erro que pode custar muito caro ao candidato

A mitologia da política, assim como a sua tradição, sugere que o sucesso eleitoral dispensa planificação. Mais ainda, que as qualidades necessárias ao sucesso – flexibilidade, oportunismo, iniciativa, experiência- não apenas dispensam como não se harmonizam com a elaboração de planos.

As campanhas eleitorais vitoriosas, mesmo para os cargos iniciais da carreira política, recorrem cada vez mais ao planejamento
Se esta é a lição da mitologia, a lição da realidade é que as campanhas eleitorais vitoriosas, mesmo para os cargos mais iniciais da carreira política, recorrem cada vez mais ao planejamento para definir sua estratégia e organizar suas atividades.
Campanhas eleitorais têm tudo para tornarem-se caóticas: tempo limitado, recursos insuficientes, pessoas tensas e cansadas, candidato ansioso e insatisfeito, forte envolvimento emocional, ocorrência freqüente de fatos novos e inesperados, etc.
A forma habitual de lidar com esta realidade dinâmica e nervosa costuma ser "vamos enfrentar os problemas e tomar as decisões na medida em que eles aparecerem". Nesta forma de pensar presume-se que o trabalho duro e a capacidade de resposta rápida serão suficientes. Não são.
Sem o mapa da viagem que o plano proporciona, a campanha tende a ser pautada pelos outros, pelos fatos novos, tornando-se reativa, dispersa, contraditória e ineficaz. Estão sempre alguns milhares de reais a menos e algumas semanas atrasadas em relação ao que se propõem! Somente o planejamento pode controlar esta tendência para o caos que ameaça qualquer campanha.
É certo, entretanto, que a tentativa de introduzir o planejamento vai despertar, no candidato e/ou em membros de sua equipe, reações contrárias e hostis. Estas reações tenderão a assumir uma ou mais das seguintes desculpas que buscam basicamente: preservar espaços já conquistados, proteger reputações, manter a liberdade de improvisação, evitar uma avaliação de desempenho e fugir do desafio de ter que aprender a fazer aquilo a que a pessoa se acostumou a fazer à sua maneira, no seu ritmo, e com seus prazos.
As desculpas mais usadas nestes casos serão as seguintes:
Argumento do tempo: É perda de tempo. Vai se gastar muito tempo em reuniões e escrevendo.
Argumento da teoria x prática: É cair na teoria (no sentido pejorativo do termo). "Na prática nós já sabemos o que precisa ser feito."
Argumento da experiência: "Nunca se fez plano assim e nunca precisamos. Nenhum plano vai ter o conhecimento da cidade x, região x, ou do bairro x, como fulano."
Argumento da rigidez: O plano vai tornar a campanha rígida e pesada. A eleição é muito dinâmica, a toda hora acontecem coisas não previstas. O plano vai inibir a agilidade, a iniciativa e a liberdade de ação, qualidades que são indispensáveis a uma campanha eleitoral.
Nenhum destes argumentos se sustenta logicamente. Tomados em conjunto, eles compõem uma caricatura, que está muito distante do tipo de planejamento que estamos propondo.
Ao contrário, o planejamento feito com competência ganha tempo, é todo voltado para a prática, tem critérios para discernir quando a experiência é útil e quando é superada. E incorpora necessariamente procedimentos para sua modificação, assegurando à campanha uma flexibilidade que não irá comprometer a continuidade do que está funcionando bem.
Fazer ou não um plano de campanha será a primeira e provavelmente a mais importante decisão que o candidato deverá tomar!

segunda-feira, 10 de março de 2008

Grupos de pressão Parte 1

Embora envolto em grande confusão conceitual, o termo grupo de pressão incorporou-se à linguagem da política brasileira. Qualquer organização ou movimento que se proponha a influenciar as decisões de governo, executivas ou legislativas, costuma ser denominado assim

A cultura política brasileira revela-se também ambígua em relação a tais grupos. O julgamento de valor sobre eles depende do grau de popularidade da causa que defendem - e não da sua função no sistema de poder. Se a motivação é popular são considerados legítimos. Se for impopular são vistos de maneira negativa.

Na realidade, os grupos de pressão devem ser analisados como estruturas que integram o sistema político. Não são institucionais - como as que compõem o Executivo, o Legislativo e o Judiciário - e sim informais, constituídas por setores organizados da sociedade. Contrariamente aos partidos políticos, os grupos de pressão não se propõem a conquistar o poder formal. Seu objetivo é influir nas decisões, seja para promover seus interesses, seja para evitar que decisões que os contrariem sejam aprovadas.



As células-mãe dos grupos de pressão foram os sindicatos de operários

Grupos de pressão situam-se no espaço localizado entre os indivíduos isoladamente considerados de um determinado segmento social e os órgãos de governo. Na terminologia da Ciência Política trata-se de uma estrutura de articulação de interesses, em contraste com os partidos políticos, que são estruturas de agregação de interesse. Grupos de pressão, portanto, são porções sociais organizadas, reunindo indivíduos que compartilham interesses e desenvolvem ações com a intenção de inspirar decisões de governo.

Origem e causas
Os grupos de pressão surgiram a partir da modernização social. Com o desenvolvimento econômico, a sociedade tradicional, de base predominantemente rural, foi profundamente transformada, dando origem à sociedade urbano-industrial, caracterizada pela enorme diferenciação interna, especialização e interdependência. A mudança decorrente traduz-se numa dramática substituição de escala em todos os indicadores demográficos e sociais: na população, na monetarização da economia, no sufrágio universal, no consumo, mercado, na produção, comunicação, urbanização, nos serviços, no transporte. Em suma, revela dimensões de uma sociedade de massa.



Índios circulam pelo Congresso, em Brasília: indivíduos que compartilham interesses e desenvolvem ações para inspirar decisões de governo

A auto-suficiência econômica, característica do localismo da sociedade tradicional, é substituída por uma complexa trama de relações interdependentes, desempenhadas de forma especializada por indivíduos treinados especificamente para suas funções. Essa multiplicação de segmentos sociais não mais pode ser representada pelas antigas formas de representação geográfica de interesses, cuja base passa a ser funcional, especializada e profissional, perdendo sua referência territorial e exigindo outra forma de representação. É exatamente para preencher esse vazio que os grupos de interesse e pressão foram criados.

Historicamente, os sindicatos operários do século 19, primeiro na Inglaterra e depois na Europa Continental, foram os primeiros grupos formados para pressionar o sistema político no que se referia à ampliação do sufrágio. Sua organização nada tinha de territorial. Os sindicatos, cuja primeira base foram as fábricas, expandiram-se para abranger todas as unidades de um mesmo tipo de industria. Seguiam, portanto, a lógica da organização funcional.

Com as mudanças no sistema capitalista, que conferiram ao Estado uma função econômica e legitimaram sua maior intervenção no mercado, aumentou enormemente o número de setores sociais econômicos e não-econômicos que constituiram associações para lutar por seus interesses e evitar medidas governamentais que os prejudicassem. Eles organizaram-se sob as mais variadas formas: sindicatos operários e patronais, cooperativas, associações profissionais, associações de veteranos de guerra, associações de empresários de um mesmo setor industrial, associações rurais, associações de entidades educacionais privadas, movimentos e grupos religiosos, movimentos reformistas - para citar apenas os de maior visibilidade. Cada conjunto pode transformar-se em um grupo de pressão - atuando sobre o executivo, legislativo, judiciário e também sobre a opinião pública - desde que sintam seus interesses ou valores ameaçados. Alguns, pela natureza continuada e permanente dos problemas que os podem afetar, profissionalizam-se a ponto de formar lobbies.
O fato a registrar é que os grupos de pressão surgiram como uma forma de representação alternativa à territorial, que não mais se compatibilizava com a natureza da nova sociedade urbano-industrial. Ocuparam um espaço intermediário entre o indivíduo e o Estado, paralelo ao dos partidos políticos - também localizados naquele vácuo - deles diferenciando-se por sua razão, que não é a conquista do poder, mas o acesso aos seus centros, a fim de obter decisões favoráveis a seus interesses ou evitar deliberações que os prejudiquem.

quinta-feira, 6 de março de 2008

Alckmin diz ao PSDB que vai concorrer à prefeitura

Alckmin informou à direção do PSDB que sua decisão está tomada. Mais: é irreversível. Vai mesmo concorrer à prefeitura de São Paulo nas eleições municipais de outubro. Aguarda agora uma posição do partido quanto à melhor data para a oficialização da candidatura.

Há dois dias, em diálogo reservado que manteve com um grão-duque do tucanato, o senador Sérgio Guerra (PE), presidente do PSDB, resumiu assim a cena paulistana: “Agora, é fazer a campanha do Geraldo e lutar para ganhar a eleição.” Diante do fato consumado, também o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que torcia o nariz para as pretensões de Alckmin, já se deu por vencido.

Em privado, FHC prometeu “arregaçar as mangas” por Alckmin. Se for sincera, a declaração representa uma reviravolta. Até duas semanas atrás, o presidente de honra do PSDB punha as mangas de fora por um outro projeto: a celebração de uma aliança tucano-democrata em torno do nome do prefeito Gilberto Kassab (DEM), candidato à reeleição.

FHC chegou mesmo a urdir uma mobilização da bancada tucana na Câmara de Vereadores da capital paulista em favor da composição com Kassab. Antes, dissera, em público, que Alckmin deveria se preservar para a disputa ao governo de São Paulo, em 2010. Assim, estaria aberto o caminho para a aliança municipal com o DEM, que pavimentaria a reedição da parceria ao redor da candidatura presidencial de José Serra.

O prazo final para que os partidos retirem suas candidaturas do armário é o mês de junho. Mas Alckmin deseja que seu nome seja levado à vitrine bem antes disso. Trabalha com a perspectiva de achegar-se ao meio-fio no final de março. Até lá, cuidará da costura das alianças. Um cerzido que já se encontra em estágio avançado.

Alckmin aponta suas agulhas em duas direções: o PMDB de Orestes Quércia e o PTB de Campos Machado. Ao primeiro, já ofereceu a posição de vice. E acenou com o apoio à candidatura de Quércia ao Senado, em 2010. Cobiçado também pelo PT de Marta Suplicy, Quércia simula a disposição de lançar candidato próprio e cozinha os assédios em banho-maria.

Com seus movimentos, Alckmin levou Serra às cordas. Até a cúpula do DEM cobre o governador paulista de críticas. Atribui-se a “teimosia” de Alckmin ao fato de Serra ter tratado o grupo do ex-presidenciável tucano a pão e água. Daí a ânsia de Alckmin em concorrer à prefeitura, um posto que lhe devolveria a voz e a visibilidade que lhe tomaram.

Mercê da incompatibilidade que o separa de Serra, o eventual triunfo de Alckmin jogará água no moinho presidencial de Aécio Neves. Não por acaso, o governador de Minas é um dos mais ferrenhos defensores do direito de Alckmin à vaga de candidato a prefeito. Enxerga no aliado uma cunha paulista para a disputa interna que trava com Serra.

De resto, arma-se em São Paulo um cenário que o PT festeja gostosamente. A despeito de a aliança com o tucanato ter escalado o telhado, a cúpula do DEM trata a re-candidatura de Kassab como um fato consumado. Argumenta-se que o prefeito não tem nada a perder. Ainda que não retorne à prefeitura, tonificaria o seu cacife pessoal para disputar, em 2010, o Palácio dos Bandeirantes ou uma vaga ao Senado.

A divisão de tucanos e ‘demos’ é, do ponto de vista do petismo, o cenário ideal. Os partidários da ministra Marta Suplicy (Turismo) argumentam que Alckmin e Kassab disputam o mesmo eleitorado. A refrega entre ambos abriria uma avenida na qual a candidatura de Marta desfilaria rumo ao topo das intenções de voto.

Na ultima sondagem feita pelo datafolha, divulgada em 16 de fevereiro, a distância que separava Marta de Alckmin era de exíguos quatro pontos percentuais. Ele amealhava então 29% dos votos. Ela, 25%. Kassab, o terceiro colocado, vem bem atrás, com 12%. A ser mantido esse cenário, Alckmin e Marta mediriam forças num segundo turno de resultado imprevisível.
Escrito por Josias de Souza às 03h13

quarta-feira, 5 de março de 2008

terça-feira, 4 de março de 2008

PSDB PRECISA REDESCOBRIR O POVO

A troca de gentilezas entre Aécio Neves e Milton Temer é parte do drama prolongado em que se movimenta o PSDB. Abrigo de tantos medalhões da política brasileira, o PSDB corre o risco de ir parar no desmanche por divergências entre seus caciques, seus índios e também entre seus economistas -- que não podem se encontrar durante um jantar para não azedar a comida. Principal referência do partido, respeitado por caciques e índios de todas tribos, Fernando Henrique Cardoso realizou um esforço de pacificação e liderança quando disse que o PSDB deveria apoiar Gilberto Kassab para prefeito de São Paulo em 2008, lançar Geraldo Alckmin para o governo do Estado e José Serra para a presidência em 2010. O resultado é que Alckmin está em campanha acelerada para disputar a prefeitura e Aécio se movimenta em torno de um “projeto para o país.” O que acontece com o PSDB? Minha tese é que o partido precisa redescobrir o povo. Quem sabe procurando os militantes, organizando uma primária no estilo americano. É uma idéia velhíssima, mas talvez seja útil, e que também poderia ter sua vantagem no PT e em outras legendas. Mas tenho uma opinião antiga sobre o PSDB. Para animar o debate, republico aqui um texto do meu blogue, com data de 14 de setembro de 2006. Faltavam poucas semanas para o primeiro turno da eleição presidencial e a vitória de Lula estava claríssima no horizonte. O título do texto era justamente “PSDB precisa redescobrir o povo”. O texto está abaixo: “ Há muito tempo que venho dizendo que o problema da campanha de Geraldo Alckmin não é marketing. É política. Minha visão é que ele não conseguiu mostrar o país que carrega no coração – e por essa razão não consegue atrair mais votos que o tradicional eleitorado tucano. Seu cesto de intenções de voto é só um pouco maior que o de José Serra em 2002, o que é um absurdo quando se considera o que ocorreu nos quatro anos do governo Lula e a fragilidade dos demais concorrentes de oposição. Acho que o PSDB precisa voltar ao povo. E essa é a prioridade para entender o que acontece agora e também quando se fala sobre 2010. O problema não é a disputa entre Aécio Neves e José Serra. Ou sobre o destino de Geraldo Alckmin, caso as urnas de 2006 confirmem o que está escrito nas pesquisas e Lula seja reeleito. Em 1994, quando fez o Plano Real e garantiu a estabilidade da moeda, Fernando Henrique Cardoso garantiu a própria eleição porque soube estar junto ao povo e foi eleito pela turma C, D e E. Esse é o pessoal que decide uma eleição direta e que hoje muitos observadores tucanos definem como mal-nutridos e desinformados. Em 1994 Lula estava com um pé no Planalto mas depois do Real foi obrigado a fazer o caminho de volta e esperar oito anos. A razão? Apesar do carisma popular nulo, FHC estava aonde o povo está – este é o lugar dos artistas, como disse Milton Nascimento, e também dos políticos. O PT precisou de oito anos para entender o valor da estabilidade, sem a qual teria tido muito mais dificuldades para eleger Lula em 2002 e sem a qual não teria conseguido governar a partir da posse. O PSDB enfrenta agora um problema semelhante, na área social. Não se deve esquecer o mensalão e sua escória, nem por um momento. Deve-se rejeitar o "não sabia de nada" e denunciar a vergonha produzida no Congresso. É preciso cobrar tudo de bom que poderia ter sido feito e não foi -- a começar por um crescimento econômico mais decente. Mas em política é preciso olhar para aquilo que o povo está olhando: comida barata, crédito acessível, ajuda aos mais necessitados, bolsa para entrar em faculdade privada. É difícil negar que o governo Lula deu uma resposta para problemas importantes para milhões de brasileiros. Pode ser insatisfatória, incompleta e até demagógica, como sustentam economistas tucanos. É claro que falta porta de saída para o Bolsa-Família, o que é grave. Mas é inegável que hoje a massa de pobres e excluídos ganhou espaço no Estado – e por isso se reconhece no presidente. Sem reconhecer isso, o PSDB estará condenado a comentar os acontecimentos. Pode falar em populismo, aparelhamento do Estado e levantar o fantasma do autoritarismo. Esta é a crítica que se espera da oposição a um governo do PT. Mas só com isso o PSDB não será ouvido pelo povo. Ficará de comentarista da vida política. Esse é ponto. FHC foi eleito em 1994 dizendo que o Brasil era um país injusto. Estava certo.” Vocês acham que, um ano e seis meses depois, esses argumentos tem valor?
enviada por Paulo Moreira Leite

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Entre a razão e a emoção

OLA
OBRIGADO POR VIR AO MEU BLOG
APROVEITE E VOLTE SEMPRE
De modo ideal, uma campanha política seria uma disputa racional. Candidatos racionais expondo seus melhores projetos e eleitores igualmente racionais avaliando, comparando e escolhendo quem apresentou a melhor proposta política. Mas a realidade jamais alcança o ideal
No mundo real, a situação apresenta-se muito mais complexa e contraditória. As pessoas que dão vida à política, seja na condição de candidatos, seja na de eleitores, levam para ela sentimentos muito fortes - como esperanças, expectativas, temores, insegurança, defesa e/ou promoção de interesses pessoais ou associativos, ambição, etc. Mais que isto, a natureza competitiva e lúdica da política, particularmente das eleições, reorganiza os indivíduos em grupos antagônicos (partidos, correntes partidárias, ideologias, interesses). Como não é possível que todos consigam, simultânea e conjuntamente, o que desejam da política, alguns conquistarão mais que outros, ou até mesmo, alguns conseguirão o que querem e outros conseguirão nada.
O cientista político Harold Lasswell definiu a política, sob tal ótica, com uma frase celébre: "Who gets what, when, how" (quem consegue o que, quando e como). A resposta a esta indagação revelaria o padrão de poder dentro de um grupo ou sociedade. A própria linguagem comum da política - toda ela concentrada na polaridade ganhar/perder - denuncia o forte componente emocional que possui. Este código é, na realidade, uma transposição dos signos da guerra e do esporte, ambos estruturados em torno da lógica da vitória.
Assim como no futebol, o jogo político tem emoção e razão. Há quem ganhe e quem perca. O segredo está no equilíbrio
Conceitos como batalha, luta, guerra, convocação, estratégia, táticas, aniquilar o adversário, abalar seu moral, ocupar espaços, avançar no território do antagonista, provocar escaramuças, fazê-lo dispersar forças e recursos, lançar um ataque surpresa, atacar, defender, minar o opositor - e tantos outros análogos - comprovam o quanto a linguagem da política é devedora da linguagem militar. Além desses, os conceitos derivados do esporte também foram apropriados pela linguagem política: jogo, jogada ou lance político, ocupar a ofensiva, ficar na defensiva, jogar para a torcida, jogo sujo, saber perder, acreditar até o último minuto, atacar pelos flancos, suar a camisa, gol contra, posse da bola, virar o jogo - e muitos outros.
Uma atividade que usa com tal freqüência idéias como as que foram citadas, obviamente está impregnada de emoção e sentimentos. Isto não significa, entretanto, a inexistência de espaço para a racionalidade na atividade política. Tanto candidatos quanto eleitores usam mecanismos lógicos para decidir. A própria linguagem da política guarda conceitos derivados da análise racional, sobretudo do repertório econômico: investimentos, prejuízo, lucros, trade off, relação custo/benefício, varejo político, transações, negociação, dívidas, crédito, saldo, retorno do investimento, projetos, colher rendimentos etc. Uma campanha eleitoral não é uma exteriorização desordenada de sentimentos e emoções. Suas ações correspondem a um planejamento racional, inclusive do uso do sentimento e da emoção!
Não há, pois, contradição insanável entre emoção e razão na política e nas eleições. As duas estarão sempre presentes. O que cada candidato busca é colocar a emoção a serviço de objetivos estratégicos e racionais.
A emoção e o sentimento são mais fortes que a razão, na política, porque é neles que se estabelece o vínculo com o eleitor. O caminho mais curto e eficiente para atrair o interesse do eleitor, para obter a sua atenção, para fazer com que ele fixe em sua mente uma mensagem e para que ele venha a se identificar com um projeto e um candidato, é o vínculo daquela candidatura com o seu mundo pessoal, com a sua afetividade.
A emoção e o sentimento são mais fortes que a razão na política
Não se deve esquecer, nunca, que não é o eleitor que sai do seu universo e dirige sua atenção e interesse para o mundo político. Antes, é este que deve ser capaz de entrar na vida do eleitor. Na política, é verdade que a montanha vai a Maomé!
A fim de ser admitida na esfera privada do eleitor - na qual ele gasta a maior parte do seu tempo, do seu interesse e da sua atenção - a política deve ser capaz de entrar em sintonia com algum sentimento forte e importante para ele. É o que se chama de nexo emocional. Estabelecida tal afinidade, o mundo da política passa a ser compreensível, relevante e envolvente. Portanto, o que atrai o foco do eleitor é a repercussão produzida pela mensagem política no seu mundo pessoal, na sua afetividade. Já a racionalidade somente terá esse poder para um número muito reduzido de cidadãos.
Para se diferenciar dos demais candidatos e atrair a atenção do eleitor, antes de usar a razão, estabeleça um vínculo sentimental consistente
Conquistado o interesse e a atenção, estão dadas as condições para que o conteúdo racional da comunicação possa ser transmitido. O nexo emocional destaca a mensagem e seu emissor entre a massa relativamente indiferenciada - aos olhos do eleitor - de informações políticas concorrentes. A partir de então, o eleitor não se satisfaz mais apenas com a sintonia nos sentimentos: ele deseja conhecer projetos, planos e programas que produzam resultados perceptíveis na sua vida. Uma vez estabelecido o nexo emocional, se o candidato não oferecer argumentos racionais ao seu potencial eleitor, será abandonado, não obstante a sintonia existente entre eles.
Por outro lado, não funciona argumentar racionalmente contra uma mensagem encharcada de emoção. Neste caso, emoção se combate com emoção. De nada adianta ao candidato contrapor montanhas de dados, estatísticas e sutilezas de raciocínio ao recurso emocional. Se a questão carrega uma forte referência sentimental, as tentativas de abordá-la racionalmente parecerão fracas, irrelevantes e fora de foco.
O que torna a questão ainda mais complexa é o fato de que não há matérias inerentemente racionais ou emocionais. Tudo pode ser transformado em argumento emocional. Por exemplo, o asfaltamento de uma estrada entre duas cidades pode ser tratado como uma questão técnica, avaliando-se sua conveniência, relação de custo/benefício com outras alternativas e prioridades. Pode, também, ser um caso de orgulho local, de afirmação daquelas comunidades. Diante de uma mobilização de sentimentos desta natureza, será possível avaliar de que maneira a argumentação racional será recebida e percebida.
O erro assinalado neste texto, portanto, não está em ser racional. Ao contrário, a racionalidade dos candidatos e de suas propostas é exigida pelo eleitor, para orientar a sua decisão de voto. Trata-se, portanto, de uma racionalidade construída sobre uma base de sentimentos compartilhados. O erro está em "tentar combater a emoção com a razão".